domingo, 16 de junho de 2019

As Cores Do Mundo


Não há que se temer o coração,
fonte de uma emoção conspícua
e de um licor que deifica toda imagem,
dando cores a um tempo que nos brinda
e clorofila a vastidão de outras paragens.

O bom de amar
é ficar todo aparvalhado.
É deslumbrar-se com as cores do mundo,
deixando para trás um sentimento preto e branco
para viver todos os dias com frescores de outono,
tons mais nobres e harmônicos
da mais requintada beleza.

Não há que se temer o amor então,
que, assim, pincela um mundo outrora preto e branco
e, feito brisa, dá meneio aos nossos dias,
calor e luz, sustento e repouso:
obra-prima dessa nossa fotossíntese... 

Melancolia


Alto lá: não te esqueci,
fosse nos rincões de minhas lembranças,
fosse nas andanças por ai:
estavas comigo e teus olhos me brindavam,
nobre musa de meus versos silentes.

À sombra de flamboyants
eu desço de meu pedestal
e me esfacelo em arenito.
Viro pó, depois viro cipó,
reconstruo minha essência humana
ao relembrar trezentos pecados.

Alto lá: não te esqueci.
Desviei meu olhar trocentas vezes
e, boquiaberto, despertei-me desta fábula,
sem mácula, sem ranço,
sem nenhum descanso,
transformando tua lembrança
em uma presença imaculada
e a solidão n’alguma coisa
que ainda te sugere... 

Algo a Ver Com o Teu Beijo



Ninhos de estrelas
reluzem no firmamento.
E todo o fel que já provei
sumiu no céu da tua boca,
feita perfeitamente
com doces favos de mel.

Flutuo ao sabor da tua boca
flanando por campos ensolarados
onde a paz se apropria de minh’alma
e os teus encantos, do meu coração.

Não há caminhos que me deslevem do teu beijo:
saliva que me consome,
beleza leve que me possui.
Não existe tanto faz:
teu beijo é o que me sustenta,
alimenta um sem número de sonhos,
realiza um sem número de inventos... 

Sonho Proibido


Era ela em sonho,
em sopro e em sorriso.
Era o meu passado que me beijava,
me desejava e despudorava.

Era ela real
nas veredas profundas do meu subconsciente,
tão real na minha mente, na minha boca, subitamente,
maviosa, atrevida e indecente.

Era ela que me amava agora, como outrora:
a pele morena, as negras melenas
e um olhar que me abraçava, ternamente, eternamente,
enquanto a luz de um novo dia cruelmente me acordava...

Sucataria



Só caibo em teu peito
como um ocaso de tua lembrança,
feito fístula que não tem cura,
fiel fartura de menor pujança.

Foi para ti que guardei abrigo e teto,
comida feita na lenha,
água de boa moringa.
E mais ainda:
te acarinhei com o melhor tecido,
delicada e refinada cambraia angelical.

Mas padeci nos teus sortilégios
que relegaste como prêmio
a quem te fez um relicário
tão bem guardado em privilégios,
mas sucateado em seu final. 

Poesia Biônica


E então eu te fiz bom tempo,
tornei a ti a melhor parte do meu dia
Canto o encanto do teu ser
na minha estúpida poesia,
literatura tola que se perde ao sabor do vento
diante do que tens de mais belo
para me dizer.

Tornei-me plateia atônita
do impecável espetáculo que és.
E, de viés, fui contemplar-te na coxia,
qual navegante a flutuar pelo convés
embriagado pelo encanto das estrelas
refletidas no intervalo entre as marés.

Hei de cantar-te com versos melhores,
compondo-te em prosas rimadas.
E dar-te-ei as melhores estrofes
de poemas marotos e apaixonados
declamados em razão da tua beleza,
com ternura, pureza e desejos mundanos:
coisas de um sentimento metafísico
inspirando nossos sonhos mais humanos... 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Chuva Colorida


Achava que ia chover
- e choveu, torrencialmente.
Trazia o coração em curto
que não curtia uma aventura,
tampouco alimentava uma emoção.

Envelhecido por tanta amargura,
meu coração marcava um compasso:
porém, era um dissonante traço desarmônico
com uma clave de sol atormentada
por uma tormenta de verão.

Chegaste, então,
sob tão intensa chuva
de coloridas gotas:
sob o náilon do meu guarda-chuva,
preservei a tua beleza
e te servi do meu amor... 

O Primeiro Medo


O que temo
não é o fim inevitável,
o momento derradeiro
em que a morte nos abraça.
O que temo não se envolve pelo mogno,
não flameja ao firmamento,
nem se acalma com uma prece.

O que temo
é o espavorido instante
no despertar da consciência,
caso não encontre o troco
que corrobore o pagamento
por desperdiçar a existência
ao não saber viver a vida.