quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

"Sem Fases Para Poesiar"


Eu vou confessar um segredo:
não existe arcano.
O mundo se vai andando
e eu vou junto.

Eu vou proferir um absurdo:
não há o impossível.
O mundo se vai
pelos rios de janeiro,
marços e maios:
e eu, desmaio.

Eu vou balbuciar um grito:
não existem aflitos.
O mundo se vai pelos ritos
da África, Ásia e Europa:
e eu, muriçoca.

Eu vou fazer uma poesia:
não existe estilo.
O mundo se vai num cochilo
de normas, formas, se servindo:
e eu vou dormindo...



Do livro “Ovo À Milanesa”, 1994.

"Banco Do Brasil"




“...criei cenários
onde vivi interpretações
que jamais consagraram minha alma...”


Num banco do Brasil
perdido numa praça não encontrada
em algum lugar de Paracambi,
um mendigo se deita.
Ele obtém a cobertura da imprensa
através de jornais municipais
sob os quais se acomoda,
fugindo do frio e de sua realidade,
fugindo da assiduidade
de sentimentos que, antes,
não lhe eram comuns...
O mendigo que já não dorme
mas esconde-se da realidade funesta,
é o Brasil deitado em um banco.

E no metrô camuflado de pressa
luxo e riqueza ao estilo de Amélia
o executivo que executa ordens
prepara-se para assumir seu posto
numa filial do Banco do Brasil.
Lá ele tocará em dinheiro,
em papéis e contas de energia.
Ele não pode imaginar o mendigo imundo
que dorme em outro canto do Brasil
tão longe dali e tão longe de tudo,
tão morto quanto ele que morreu em vida,
duas almas separadas pela matéria fantasma:
a carne...

Indo à míngua tentando entender a língua
de dois Brasis tão diferentes
descubro, já tarde, que não sou poliglota...



Do livro “Ovo À Milanesa”, 1994.

"Olhos"



Olhar que não fito
Olhos que não beijo
Com meu olhar.

Olhos que se escondem
Por trás das cortinas
De pálpebras pesadas.

Olhar que foge
Daquele que quer
Existir em seu reflexo.

Olhar complexo
Nos olhos que labutam
Minha imaginação.



Do livro “Ovo À Milanesa”, 1994.

"Flores"



Trago flores para quem faz-se flor
E que com amor exala seu perfume
Quando assume a condição de pétala.
Delicada em suas formas mais cabais
Sem que jamais assuma a condição de espinho
Mergulhando nos profundos oceanos do carinho
E de tortura: na boca o sabor de sua doçura.

Trago flores, trago a loucura
A caminhar comigo em busca do seu ser
Se pra viver eu preciso de seus odores
E dos sabores de seus lábios, vem meu envolver
Faz-se suave esse querer que me entorpece
E que anoitece o dia claro a diabrura
É só loucura: fotossíntese é te querer...

Trago flores para quem sempre foi flor
E leva o sabor da minha boca em seu beijo
E o arpejo da minha canção em seu cantar
Hei de amar mesmo que encontre seus espinhos
Pois bom carinho os poda em forma de razão
Para querer, para viver e ser perfume
De tantas flores que enaltecem o doce odor dessa paixão...




Do livro “Ovo À Milanesa”, 1994.

"Bobo Da Corte"




No seu reino sou bobo,
sujeito às suas vontades
e ao sorriso em seus olhos.
Faço-me vassalo
dou cambalhotas e brinco
com seus gemidos e sussurros.
Na sua corte sou bobo
que vive para lustrar
sua coroa de mulher.

Redescubro a realeza
da beleza do meu pranto
o brilho cristalino
de cada lágrima que enxugo, caprichoso:
na sua cama sou bobo.

Faço sua coroa reluzir
lustrando-a com meus dias.
E nas noites, a nossa monarquia
um reino de amor em cada corpo.
Na sua corte sou bobo
de seu reino, pouco ou nada sei...
Mas em sua vida, eternamente,
serei rei...



Do livro “Ovo À Milanesa”, 1994.

"A Figura Do Poeta"



Dos cacos vive o poeta:
coração estilhaçado
pelas desgraças da vida
e amores desamados
que desarmaram o vate
e lhe causaram feridas
que sangram versos...

Dos desafetos se sustenta o poeta,
e de afagos perdidos no tempo
ao sabor da brisa hoje tão sem gosto.
Uma espécie de encosto
se apodera do 
poeta
e faz caberem nas letras
os desgostos no meu peito.
E, como efeito, surgem versos
que só o vate entende
e os faz traduzirem-se
nas rugas e cravos de seu rosto.

De lágrimas são feitos os contornos
do cenho finito ante a morte
que abraça o poeta com sorte,
feito entorpecente contíguo,
sombrios recôncavos do ser,
canto comum dos poetas
que não se deixam desvanecer...

Dos cacos se sustenta o poeta,
trapos à sua imagem e semelhança,
alimento untado em desesperança
do vate maluco e suicida
que sobrevive aos desafetos
e, somente por isso, sangra versos...



Do livro “57 Poemas Brasileiros”, 1997.

"Soneto Da Liberdade"



Vomitei um poema sem estética
Pela boca bem mais larga da poesia
Toda boa rima rica enquanto fétida
Declamando estrofes plenas de heresia.

Vou mais longe, mais insano nessa métrica
De um soneto em verso branco, primazia
Nos momentos que a poesia se faz lésbica
E meus versos são tomados de anemia.

Quero ver livre o poeta declamar
Versos seus para rimar ou não rimar
E com musicalidade ou não, repita.

Como é mestre no seu feito de criar
A poesia que renasce a almejar
Essa livre inspiração mais infinita...




Do livro “57 Poemas Brasileiros”, 1997.

"LVII Dólares"




Pedaços de um céu fragmentado
desabam sobre mim.
E assim, somente assim eu me destrono
em versos cheios de poesia...

Resquícios de um véu
que acoberta dor e mentira
incendeiam-se na vida real.
E eu, apenas eu, serei capaz de sair vivo
da concentração em campo
de todos os dias.

Sabores de um fel
que despetala sonhos pródigos
perdem-se no tempo.
E o amor, só o amor,
se destruiu em cada angústia
e na tortura de meu peito cheio de heresia.

Pedaços da vida são vendidos em leilão
por um punhado de dólares.
E a poesia, eterna poesia,
insana e fragmentada,
unifica os estilhaços que compõem cada verso
do resto de nossas vidas...


Do livro “57 Poemas Brasileiros”, 1997.