sábado, 28 de março de 2015

"Horizonte Vertical"



O ser poesia me toma,
me alimenta e me consome.
Leva-me ao encontro daquilo que não sou,
torna-se proprietário legítimo do que não possuo,
reinventa meu nada, desconstrói o meu tudo.
O ser poesia está em mim,
híbrida criatura de eu mesmo.

Observo o horizonte vertical do ser poesia,
relembrando sua aurora,
seu crepúsculo, sua alquimia,
todo o imaginário tosco,
retórico e contraditório,
que formata e condimenta
sua essência de heresia.

Pois é disso que se sustenta
o poeta errante e inglório,
criando-se e reinventando-se
quase todo o santo dia,
dormindo e acordando
como um novo ser poesia.




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Manual Da Poesia Fajuta"



Quero a poesia mais vadia,
mais séria por melancolia,
munida de boa heresia
e métricas silábicas banais.

Almejo versos bacanais,
que se entrelacem às estruturas
de uma poesia sem frescura,
mas com frescores literais.

Das boas rimas, quero mais
ou sem elas, tanto faz:
a poesia se constrói na fantasia,
realizando a existência
dos meus sonhos madrigais.



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"O Paradoxo Da Salmoura"



O mundo vai em frente
e mais além
do vai e vem de transeuntes,
dos passos mal dados de antes,
do fiel amém das capelas.

O mundo abre todas as velas
e regala-se, atento,
ao sabor do vento
que concede destino
àqueles que ousam.

Não serei eu uma ervilha preservada
pelo conformismo insosso 
de uma simples salmoura
– pois tudo aquilo que busco
vai muito além da lata...



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Catete"



Desembarcar do metrô
sair da estação
e tomar um café no Catete.
Observar transeuntes,
os vens e os vãos,
ruas e calçadas despertadas,
abarrotadas de tanto amanhecer.

E como não perceber os mercados,
as plantas nas janelas,
o movimento dos carros,
o caminhar dos idosos
e das moças preguiçosas
arrastando os pés?

E, de viés, como não se render
ao aroma suave dos restaurantes,
ao bate-papo nas bancas de jornais,
aos hotéis, menestréis e tudo mais?

Retornar ao metrô,
embarcar no trem
e deixar para trás o Catete.
Porém, feito um flerte,
recomponho meu olhar apaixonado
e desembarco no Largo do Machado...




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Ensino Básico Do Amor Fundamental..."




No 1º grau do teu amor, eu era infante,
estudante errante que não demonstrava,
mas se arrependia.
Era só orgulho no compasso incerto
de nossas mãos dadas,
qual lição tomada que só dava certo
quando eu te aprendia.

No 2º grau do teu amor, eu era formando,
quase formatando cada encanto teu
como bem sabias.
Era só poesia cada passo dado,
cada abraço farto
que, de fato, ousamos
quando bem querias.

No 3º grau do teu amor, eu estava pronto,
era graduado na ternura tua
que, enfim, compreendia.
Tanta coisa nossa por vontade mútua
quando, assim, havia
toda uma vontade de especializar-me
neste nosso amor...



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

sexta-feira, 27 de março de 2015

"Predicados"



Desconheço adjetivos que te definam,
despedaço pronomes que te desmontem.
O que és para mim, transcende a palavra
e vai além de muito mais do que não digo.

A princípio, és o começo,
início elementar nesta existência,
essência linear do que preciso.
A propósito, é de propósito
que busco interpretar tua semântica
tecendo predicados que nos unam.

Desconheço qualquer forma de palavra
que não traduza a dimensão do que tu és
como função gramatical de nossas vidas...




In: "Manual Da Poesia Fajuta"  (Wattpad, 2015)

"O Velho Beija-Flor"



É de puro violeta
a flor que não beijo
e que se faz sem cheiro
quando não ser jovem
é mais que um defeito.

É de puro cansaço
o voo que não faço
por não ter a força
de um outro tempo,
com asas ao vento.

É com leve brisa
que desfaço o tempo
que, agora, me leva
em seu frio espiral
no meu voo final...

                                    
                      Dedicado a meu pai, 
                Fernando Cortez Ferreira
          (*19/06/1943  +25/02/2015)



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Cambacica"



E ela vai, em seu voo atarracado,
ave cheia de desazo.
Ousada, até para no ar – pra quê voar
quando a flor à sua frente se oferece,
lançando um odor sedutor?
E isso faz a cambacica
imaginar que é um beija-flor...

E ela faz o seu pouso atrapalhado,
derreando, sem cuidado.
Fazendo de seus pés a ponta dos galhos,
busca o néctar que tanto lhe apraz,
muito e mais, com o vento a seu favor.
E isso faz da cambacica
o projeto torto de um beija-flor...

E ela dorme o seu sono exasperado,
arapuca do cansaço.
E vai mais longe em seus sonhos coloridos,
chilreando livre e com destreza, sem temor,
voando para trás, voando para frente,
transformando finalmente a cambacica
no mais belo beija-flor. 



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Primaveras"



Já vi muitas primaveras
e outras tantas já vivi.
Bons ventos que subtraí
na equação do tempo
que se soma à exatidão.

Primaveras, desde então,
já vivi, experimentei.
Bons momentos que somei
a movimentos inconscientes,
mas repletos de emoção.

Envelheci com as primaveras,
mas respeito todas elas:
a despeito deste tempo
que divide-se em minhas rugas,
logo chega outro verão... 



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015) 

"Na Primeira Estação..."



Veraneio na varanda,
verão ocioso.
Preguiçoso fazer nada,
desvontade excelsa:
finalmente, férias.

Busco a água da cacimba
como fuga ao suor da tarde.
Arde o sol no firmamento
alimentando a sensação
de que o céu chegou ao chão.

Quando a noite se despe em mormaço,
o marasmo então se anima
e refina as esperanças
do frescor tão esperado:
ligo o ar condicionado.



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

quinta-feira, 26 de março de 2015

"Estação Francisco Sá"



Foi quando teu silêncio
deu lugar ao nada resta:
sem aqueles passos de outrora,
sem as mesmas conversas de antes,
sem instantes, sem passado, sem memória.

E foi então que as plataformas
deformaram-se em ruínas
engolidas por si mesmas
e com passos que não mais caminham
sem vagões, sem trilhas, sem ramais.

Vou mais longe na lembrança
da estação despedaçada:
meu coração espera o apito de um trem.




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Passas Ao Rum"



Bom sabor que me entorpece,
teu beijo, quase uma prece,
calor que desperta meu peito,
licor de boa fruta em minha boca.

Provo a todos, escolho nenhum:
prefiro as passas ao rum
que dão sabor aos lábios meus.
Tens em tua boca a suavidade
de um agridoce que me emudece
e me enlouquece, quase numa prece:
suculenta sensação de um beijo teu...



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"O Poder De Um Beijo"



Nem de longe me sustento
sem teu beijo:
alimento completo e saboroso,
repleto de energia e nutrientes.
– De repente é gosto bom na minha boca.

Nem sonhando sobrevivo
sem teu beijo:
elemento primordial da existência,
boa essência, cujo sumo é o que consumo:
– Puro encanto de teus lábios em minha boca.

Nem contra a vontade me abstenho
do teu beijo:
necessário amanhecer que se faz dia
e se irradia em minha língua, sem palavras:
– Profana liturgia que celebro em tua boca.



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Goiabada Démodé"



É de boa goiaba que me sirvo,
puro néctar, beijo de tua boca
branca e doce, mel em que vicio
fruta fresca, carne de muita polpa.

É de boa goiaba que te sirvo
casca tênue, coisa de pele,
rubra e doce, força que me faz vivo,
sumo leve que te absorve, suave...

Por entre folhas e galhos, nos servimos
do que há de novo e de belo no pomar,
luxuriantes instantes em que sentimos
o bom sabor deste amor de araçá.




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Luar"




O mar da tranquilidade nos invade.
Lua cheia sempre nova,
remoçando o velho amor mesmo e de sempre,
dando cores fluorescentes
e quarando cada instante que nos une
ao sabor deste luar...

A lua é nossa, a luz destroça o espaço-tempo:
perdemos a noção da hora
se nos devora os caprichos do prazer.
Maremoto no Mar da Tranquilidade
até que o sol nos devolva a realidade
com a chegada de um novo amanhecer.


                               
                                Para Thais Taranto, com carinho.


In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Tipo Nuvem"



Foi assim,
tipo nuvem:
chegou, marcou, magoou,
partiu com a tempestade
e, sem deixar saudade,
se foi...
Horizonte sem fim,
sem lembranças,
tipo nuvem
foi assim... 




 In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"O Vento"



Vento que venta,
vento que inventa
se tenta me levar,
feito rodamoinho.

Vento sozinho
que esquenta ou frienta
e até se reinventa
mas que, tolo,
se desorienta
quando me vou com a brisa... 



In: "Manual Da Poesia Fajuta"  (Wattpad, 2015)

"O Formigueiro"



Não serei eu o homem trêfego
deste formigueiro.
Nem tão pouco
darei passos trôpegos
como em lamaçais.

Cantarei como poeta
as vaidades abissais
destes meus dias
e as constantes maresias
que não dissolvem a hipocrisia
com seus sais.

Sei bem de todas as lutas
e de tantas putas
com as quais não dormi.
Sei mais sobre outras angústias
de almas perturbadas
por amor ou dinheiro,
devoradas na mesmice obtusa,
rotina cansada deste formigueiro. 




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Niemeyer No Méier"



Concreto armado que se arma de mesmices
mesmas paredes, pinturas e grafites,
colunas de cores carcomidas e comuns
que conduzem meus passos a lugar nenhum.

Asfalto rachado em ponto de fervura:
mesmas esquinas, vielas e feiuras.
Vou vencendo tais distâncias 
com passos apressados
deixando para trás os espaços enlatados.

No Méier não há Niemeyer,
Niemeyer não foi ao Méier.
Fino trato de seu traço
que primava de bom gosto,
antítese de um bairro
resenhado a traço tosco.

E assim,
feito Niemeyer,
eu prefiro Niterói. 



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

quarta-feira, 25 de março de 2015

"O Campanário"




O sino que toca
evoca esperanças.
Boa gente que caminha
em passos de domingo,
ao encontro da fé
que a todos move.
No campanário, suavemente,
Deus está chamando sem gritar... 




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"O Aniversário Do Judeu"



Cintilantes luzes
refletem os olhos
das crianças no Natal.
Cada passo segue o compasso
dos pisca-piscas nas vitrines.
Advento fraterno na cidade,
comodidades de uma festa sem convite.

Há quem evite o bom encontro
e os que ninguém quer esperar -
os solitários, os esquecidos,
os afortunados desvalidos:
a festa é de todos, mas não para todos.

A tradição de seus presentes
nos remete a um passado
que tanto nos desabona
mas que, assim mesmo,
desejamos celebrar.




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)