domingo, 16 de junho de 2019

Madrigais


Não há males, nem há medos,
tampouco desassossego.
O que nos acerta é o erro
de conferir lógica à mágica
quando nos temos, amantes,
mas sem a intenção de se amar.

De certo, somos de pele,
de química, tesa alquimia.
Completamos a existência vazia
com anseios da paixão faminta
que durante a madrugada infinda
se alimenta de nossos lençóis.

Não há males, nem há medos,
tampouco vicissitudes.
Sem demora, as horas passam,
cantam haustos de um prazer que nos devora
antes que a madrugada termine
e o amanhecer nos desnude. 

Pães e Peixes



Multiplique o teu amor qual pão e peixe.
Multiplique e o reparta comigo, apenas comigo,
que, entre o dito e o não dito,
o farei gênero de imensa necessidade.

Adormece esta minha meia-idade
e faz destes bons anos
tempos de amor e multiplicidade.
Multiplique de boa vontade,
multiplique, apenas multiplique.

O pão e o peixe de nossas vidas
divididos de maneira desmedida,
alimenta cada um dos nossos dias
fartos de amor e outras sentimentalidades,
nossas noites bem servidas de harmonia
e nossa cama com voraz cumplicidade. 

Butete



Envenena-me
para que eu desfaleça
em teus braços.
Ocupando os espaços do teu corpo,
quase morto,
suicidando-me no teu prazer
pra renascer em teus encantos,
tanto quanto me decantem
no mais aprazível fenecer...

Envenena-me
para que eu sobreviva
em teu peito,
sorvendo teu deleite, teu azeite,
teu butete,
prato preferido que me fere
e que interfere feito vício que faz bem:
solstício que ilumina o meu querer,
condimento a este aprazível padecer... 

Aquela Boca


Boca carnuda,
boca que desemboca
na minha boca,
louca, devoradora, inefável,
suculenta carne de púrpura polpa.

Boca bonita
que enforca, me foca, me excita,
aflita, se incita,
arguta e arisca,
explícita tara de uma boca faminta.

Boca que almejo
na minha boca,
língua e saliva,
estrelas cadentes
pelos céus de nossas bocas
reluzindo muito mais
o nosso beijo gutural... 

O Futuro


...e que os dias se levantem,
que despertem ao nosso lado,
tão agrestes quanto os olhos
meio inchados – mal se aguentam.
Mais um dia que começa
dentre tantos, tantos outros...

...e que os dias não escondam
a sabedoria plena
que o futuro nos reserva.
Que estudo seja básico
e o aprendizado exato
com opiniões bem próprias,
firmes, plenas de mudanças,
pr’este mundo complicado
e tão simples de entender.

E aprender sobre este mundo
e outros mundos, onde estejam,
é mudar o nosso mundo
e expandir nosso universo
para o qual não há limites
se há vontade de aprender.

...e que os dias a viver
quantos forem necessários,
façam do futuro incerto
a certeza que o saber
não se constitui de notas,
mas do amor com o qual se aprende.

As Cores Do Mundo


Não há que se temer o coração,
fonte de uma emoção conspícua
e de um licor que deifica toda imagem,
dando cores a um tempo que nos brinda
e clorofila a vastidão de outras paragens.

O bom de amar
é ficar bobo e aparvalhado,
é deslumbrar-se com as cores do mundo,
deixando para trás um sentimento preto e branco
para viver todos os dias com frescores de outono,
tons mais nobres e harmônicos
da mais requintada beleza.

Não há que se temer o amor então,
que, assim, pincela um mundo outrora preto e branco
e, feito brisa, dá meneio aos nossos dias,
calor e luz, sustento e repouso:
obra-prima dessa nossa fotossíntese... 

Melancolia


Alto lá: não te esqueci,
fosse nos rincões de minhas lembranças,
fosse nas andanças por ai:
estavas comigo e teus olhos me brindavam,
nobre musa de meus versos silentes.

À sombra de flamboyants
eu desço de meu pedestal
e me esfacelo em arenito.
Viro pó, depois viro cipó,
reconstruo minha essência humana
ao relembrar trezentos pecados.

Alto lá: não te esqueci.
Desviei meu olhar trocentas vezes
e, boquiaberto, despertei-me desta fábula,
sem mácula, sem ranço,
sem nenhum descanso,
transformando tua lembrança
em uma presença imaculada
e a solidão n’alguma coisa
que ainda te sugere... 

Algo a Ver Com o Teu Beijo


Ninhos de estrelas
reluzem no firmamento.
E todo o fel que já provei
sumiu no céu da tua boca,
feita perfeitamente
com doces favos de mel.

Flutuo ao sabor da tua boca
flanando por campos ensolarados
onde a paz se apropria de minh’alma
e os teus encantos, do meu coração.

Não há caminhos que me deslevem do teu beijo:
saliva que me consome,
beleza leve que me possui.
Não existe tanto faz:
teu beijo é o que me sustenta,
alimenta um cem número de sonhos,
realiza um cem número de inventos...