domingo, 22 de março de 2015

"Depois De Antes"



O lugar em que não ando
e onde, antes, já estive,
me espera, sem convite,
para acalentar meus passos
com recordações sem máculas. 

Na lembrança sobrevive,
qual inspiração secreta,
transcendendo em minha poesia
todo o encanto de suas plagas
por palavras que me escrevem.

O lugar em que já estive,
como antes, fica à espera
de reencontrar meus passos
pra tornar-se um bom destino
onde o tempo não me leva...



 In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Palácio Monroe"



O que é bom, não se destrói,
pois a perda é irreparável
e irretocável é o erro
de dar cabo ao que é belo
por inútil vaidade.

Se é sólido
– e se fica –
serve ao bem comum a todos
que se encantam com sua arte.

Mas se foi, agora é tarde:
patrimônio tão perdido
quanto os olhos que não o veem:
onde estarão os leões do palácio?
Calaram-se, fugiram
– tão fútil, tão fácil. 



 In: "Manual Da Poesia Fajuta"  (Wattpad, 2015)

"Desfastio"



À vontade, permaneço sem vontade
de beber da mesmice
que a tantos brinda
e que tanto evito
em busca de refúgio.

Não me prendo a sortilégios,
privilégios não dou conta,
quando, então, somente afronta
o impulso mais rebelde
de largar esta manada.

A labuta é o nada
se há sentido no ócio.
Dou as costas à manada
e sigo em riste a paisagem:
liberdade é prestação que não vence... 



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"O EU Fragmentado"



Nem mesmo sombra do que fui
hoje me faço.
Despedaçado pelo anos de penúria,
desfigurado na feiura das pessoas,
deixo levar na maré podre do desgosto.

Em mar aberto
há desafeto e letargia,
desmontando-me com tédio e desalento
na esperança que o raiar de um novo dia
junte os pedaços do que fui n’outro momento.

Oh, desventura dos que vivem o desespero
de padecer por mera ausência de ternura
se consumindo, desgastando,
definhando, esmaecendo
– fatal veneno do egoísmo e da amargura. 



In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

"Rabiscos"


É por pura vaidade
que regalo estes rabiscos
no que chamo de poesia.
Presunção deveras minha
crer que estes versos livres
se aproximem de Bandeira,
de Fernando em Pessoa,
de Cecília ou de Drummond.

É púrpura a verdade
que Bilac os rasgaria
e nem isso Machado de Assis.
Tão somente são rabiscos
construindo minha poesia,
que entre os astros e estrelas
dos escritos literários,
é um errante meteoro abissal.




In: "Manual Da Poesia Fajuta" (Wattpad, 2015)

Sobre a Coluna "Sociedade Crônica"



A coluna Sociedade Crônica foi publicada no jornal semanal O Gazetão entre 1995 e 1997 e tinha como autores, além de Sérgio Cortêz, os poetas Isac Machado de Moura, Tatiane Marques e Demétrio Sena. O quarteto se revezava a cada edição, com textos que abordavam aspectos e peculiaridades da sociedade brasileira da época, com ênfase nos municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, onde se concentrava o público alvo do periódico.
     O Beco Da Poesia abre agora um parêntese especial e faz um breve registro desta época, apresentando ao visitante do blog dez trabalhos de Sérgio Cortêz selecionados entre os vários publicados em O Gazetão. Para aqueles que viveram o período compreendido pelas crônicas, será uma boa oportunidade de relembrar apanágios comuns à época, enquanto para os mais jovens tratar-se-á de uma chance de voltar no tempo para conhecê-la um pouco melhor.

     Bem-vindo, visitante, a uma sociedade cada vez mais crônica. 

"A Garota Da Xerox"


Era um dia lindo como outro qualquer. O sol quente me fazia sufocar dentro da camiseta de algodão; os pés pareciam ferver dentro do sapato envernizado; a poluição me tirava o fôlego como se o cigarro já não bastasse; meninos sujos e esfarrapados dividiam o espaço da praça com mendigos sifilíticos; um idoso vomitou todo o café da manhã na fila do banco, à minha frente: realmente, um dia lindo!
E eu ali, carregando alguns documentos que precisavam ser copiados. Caminhei em direção a uma papelaria para tirar algumas cópias quando me deparei com ela, que me pareceu à coisa mais linda do mundo: cabelos longos e lisos qual uma cachoeira de elegância e harmonia; a pele, um convite quase irresistível de uma maciez flagrante; corpo de Vênus, modelado pela natureza com todos os caprichos mais cruéis e um jeito; um modo simples de ser nobre a me envolver, enquanto eu pegava minhas cópias e pagava pelo serviço.
Pouco ou nada nos falamos. Não me olhou em nenhum momento. Parei na frente da papelaria, fingindo conferir os documentos xerografados. Titubeei. Senti vontade de retornar a ela, dizer-lhe o quanto era linda e o quanto fora bom tê-la visto naquele momento. Voltei-me para vê-la mais uma vez: estava ocupada atendendo outro freguês, provavelmente alguém que não teria olhos para aquela beleza angelical. Tornei a pensar em um milhão de hipóteses: talvez ela gostasse de um elogio, pois em meio a tanto trabalho algumas palavras doces lhe fariam bem; talvez ela se assustasse com o atrevimento de um desconhecido; talvez ela ficasse surpresa com uma atitude tão inusitada.
Tornei a observá-la: linda, plena, suave como o movimento de pétalas sob a dança da brisa doce e vaidosa. Mas ela novamente sequer me notou. Pensei em ser radical, dizer o quanto ela era esplendorosa, que fora feita para ser amada, muito amada. Sim, seria louco a esse ponto, pois não me importavam as consequências desse ato. Mas ponderei: ela poderia me julgar petulante, talvez até tivesse a atenção chamada pelo dono da papelaria.
Desisti. Era melhor ir embora e esquecer a coisa mais linda que eu havia visto em toda a minha vida. Foi quando me voltei uma última vez, apenas para guardar na memória sua beleza: ela também me olhou e estava sorrindo para mim. E acenou, novamente sutil.
Era um dia lindo, mais do que qualquer outro...··.

Publicado no jornal O Gazetão, 1995
Coluna Sociedade Crônica

"Do Amor e Outras Mazelas..."



O Namoro:
Ele beijou sua boca e sussurrou em seu ouvido. Ela suspirou um gemido e tocou as mechas suaves de seu cabelo que contornavam seu cenho em paisagem natural. Ele quase fez um apelo ao sentir seu peito arfante pulsar forte no coração dela, esfregando seus lábios em sua face meiga, quase um canto angelical. Ela o apertou contra si e deduziu, por fim, que encontrara o homem que sempre desejou. Ele pensava o mesmo a respeito dela.

O Noivado:
Ele beijou sua boca e disse, logo em seguida, que o crediário já estava pago. Ela ficou feliz e falou que sua mãe havia comprado o fogão como presente. Ele torceu o nariz, mas ficou aliviado por uma despesa a menos. Ela falou do pedreiro, que cobrava caro mais fazia direito. Ele falou da geladeira e puxou um cartão que a surpreendeu. No mesmo estava escrito: “muito procurei, mas te achei. Estás junto a mim. Com amor...” Ela percebeu o erro de Português, mas até fingiu que não havia nada. Deduziu que encontrara o homem certo. Ele pensava o mesmo a respeito dela.

O Casamento
Ele a beijou mais uma vez quando o padre assim outorgou. Na saída, ela escorregou nos grãos de arroz que jogavam sobre o casal. Quase caiu, mas ele a conteve com seu punho forte. Ela se achou com sorte por tê-lo encontrado antes de tantas. Ele pensava o mesmo a respeito dela.

O Primeiro Filho:
Ele olhou para o berço e achou que a criança tinha a cara dela. Ela pensava o mesmo e, muito vaidosa, dizia “é meu filho”. Ele sorria sem jeito diante da sogra a cochichar com ela. Ela sentia-se feliz por ter tido um filho com o homem que sonhara. Ele pensava o mesmo a respeito dela.

Dez Anos Depois:
Ele já não aguentava tantos queixumes por parte dela. Ela já não suportava o relaxamento e desleixo dele. De dia só monotonia e a cama mais fria por cada uma noite. Ela achava que o amor havia findado. Ele pensava o mesmo a respeito dela e não tirava da cabeça uma traição que ela não sabia.

Do Divórcio:
De frente para o juiz ele falava coisas que, na opinião dela, não tinham sentido. Ele a chamava de meretriz e ela o acusava de uma violência que não existia. E parecia não existir filho, nem mesmo cartão ou beijos suaves em noites ardentes. Só havia farpas, cifras, erros, custódia... Não trocavam olhares, não havia esposa nem havia marido. Eram quase inimigos, almejando distância na separação. Ela tinha certeza de que cometera um erro no primeiro dia em que o conhecera. Ele pensava o mesmo a respeito dela...
...e o filho dos dois está sendo criado pela mãe dela. 



Publicado no jornal O Gazetão, 1996